Número de visitas da Blogosfrega

Saturday, June 18, 2011

Underground de Emir Kusturica- Os filmes da minha vida por Sir Frankie Goethe Wally Wood




Underground é a mentira da mentira, ou, o que vem dar no mesmo, a afirmação de uma verdade ocultada. Rodado a pensar numa Jugoslávia já extinta, a realidade do filme é mais subterrânea que o título. Podemos ver no subterrâneo onde as personagens principais conspiram, uma metáfora de um regime paternalista que «resguardava» os seus cidadãos do mundo e da vida ao ar livre. 
Mas essa é, na verdade, a mais simplista das leituras: congelados no tempo, os caracteres que se movem na penumbra lutam ainda e sempre contra...o inimigo nazi, derrotado meio século antes. Alguém se esqueceu de os informar que a guerra tinha acabado? nada disso, pois de esquecimento não se tratou mas de verdadeira ocultação. O mesmo tipo de ilusionismo que criou a ficção jugoslava, feita de nacionalidades distintas e rivais (quando não mesmo inimigas), criou um mundo atroz em que a «representação» do real fica a cargo de quem vive nas trevas. Aos outros resta obedecer: lá fora, à luz do dia, há fantasmas? pois guerra aos fantasmas! Lá em cima, à superfície da Terra, vivem seres horríveis, capazes de destruir o pesadelo dos que vivem como toupeiras? morte a essa perversa humanidade! A alienação presente desde o início deixa-nos perplexos e é com perplexidade que avançamos, num crescendo surreal (característico de Emir Kusturica alías) e algo apocalíptico: espera-se o fim do mundo, ou pelo menos o fim de um certo mundo, para bem da sanidade mental de todos. Mas esse fim não vem: a alienação reproduz-se, como uma praga, amplia-se, toma conta de tudo, das relações, das iniciativas, da própria rotina. 
Quando a claustrofobia se torna insuportável, as personagens emergem à superfície mas já não sabem viver num mundo de luz e de evidências: dir-se-ia que, definitivamente, a ficção Jugoslava (e com ela boa parte do mundo) se desmoronou ruidosamente em contacto com uma realidade que sempre tentou evitar.
É numa situação destas que estamos agora também: submersos por uma realidade que muitos teimam em negar. Do «posto de comando», as ordens que recebemos não nos ajudam a compreender a realidade, antes pelo contrário, ficcionam-na até que ela se torne um sucedâneo que a substitui!
Um dia destes muitos de nós terão de vir à superfície, para respirar, por um pouco de luz. Quem tiver de o fazer terá de vir protegido com óculos muito especiais: dizem que após longas horas em ambiente subterrâneo, o contacto com uma luz demasiado intensa pode cegar!

No comments:

Post a Comment

Mensagens populares

Blogosfrega

Followers

Blog Archive

About Me

My photo
Viseu, Beira Alta, Portugal
autor satírico, cartoonista pseudónimo de António Gil, Poeta e Ficcionista, Não sectário, Agnóstico, Adepto Feroz da LIberdade de Imprensa e de Opinião...

Labels